“ela não quer apenas palavras. não. as palavras são bonitas? lógico que são! as vezes tem rima, as vezes não, as vezes a métrica domina, as vezes o poeta nega: objeção.
todas as palavras são escolhidas pelo poeta que as pesca no mar. ele tem rede, tem anzol, tem isca. tudo isso ele no papel rabisca, risca, risca. o mar, esse do qual falamos, é profundo? como oceano! os peixes convidam pra nadar e nadamos. mas. que adiantam as palavras? são tão bem articuladas no papel, presas, imóveis. a acepção nos diz que quando são lidas elas tomam vida, criam pernas, asas. voam! andam! nadam! mas, palavra qual já trouxe caricias, ja trouxe prazer? ja virou boca e beijou? ja tornou-se corpo e amou? não. as palavras são lindas, poderosas, místicas, magicas, divinas, etéreas, eternas. isso tudo? sim, são. mas nunca sentiram o gosto de um beijo, de um abraço, de carinhos. tentam mas não conseguem. viram moeda de troca talvez. não. não ouso tirar a divindade das palavras. mas elas nunca serão.
ela não quer apenas palavras. ela quer gestos, ela quer olhar, sorriso, mão, peito, beijo, suspiro. ela não quer só ouvir, ela quer falar, sussurrar, respirar, gritar, ensurdecer. ela não quer só olhar, ela quer tocar, sentir, fazer, torcer, apertar, arranhar. isso ela quer. o ‘eu te quero’, ‘eu te amo’ não se escreve apenas com palavras. se tece com o próprio corpo.”