bem-te-vi

Mas se eu tivesse asa o laia
Claro que eu i’ visita
E se eu tivesse tempo o leie
Nem de ti eu i’ esconde

Pois meu amor é nobre demais
Nem serventia nem capataz

Que doce doce e mais é o mel
Que lábios quentes detrás do véu
Pois se eu fosse o céu todo azul
choveria só de escarcéu

E Que pequena a dor que me jaz
Quando dos olhos vida me traz
E fogo quente do seu quadril
Me Aquece e inflama, chama voraz

Pois meu amor é forte, enorme primavera
E do meu corpo a morte, a morte me aprisiona

annie

dedilha-me como as mais belas
das tuas músicas

guia-me pelas tuas clavículas
e em teu colo farei abrigo

canta-me cada uma das tuas memórias
e dançarei até o fim de meus dias

destila o favo de mel dos teus lábios
e nunca mais terei sede

carboniza-me nas chamas das tuas madeixas,
e afoga-me nesta fogueira

arrebenta-me tal folha seca aos teus pés,
e que o ar de meus pulmões te faça conforto

ofusca-me com o branco da tua pele
de onde meus olhos não se afastam um instante

encara-me com teus olhos-jabuticaba,
e que este doce jamais se acabe

visita-me como aparição etérea
e de agnóstico me farei devoto perpétuo

3 de janeiro

está chovendo. a fumaça branca que sai das árvores é um sopro suave de pulmões verdes. o friozinho no ar é gostoso. me faz lembrar mil coisas. no meio do caos dos pensamentos, muitos deles me levam até você. são flashes rápidos de mãos juntas, de lábios quentes (os meus) e frios (os teus) no encontro de um copo de água gelada e um copo de café quente. tantas sensações, tantos sentimentos: fracasso, agonia, medo. mas na lembrança do teu sorriso: alegria, satisfação, me sinto resolvido. meu peito dói, fisicamente, emocionalmente. o desprezo que sinto por mim mesmo é imenso. os berros, a náusea. queria me banhar na chuva, me limpar, me purificar de mim mesmo. afogar e naufragar.

as consequências de você

“a rua que sempre andava cabisbaixo – o vento ora esbofeteando o rosto, ora empurrando minhas costas e me obrigando a andar, os transeuntes observando-me frio, o Sol embaçando meus olhos, o corpo cabisbaixo, os olhos aos pés, os pés ao chão: arrastado – andei brioso e imodesto desta vez; no metrô lotado e mal-cheiroso, deprimente, raivoso – as janelas sujas, o ar ora quente demais, ora frio demais, os olhares desconfiados ou translúcidos, os corpos encostando-se sem querer se encostar – fechei os olhos e sorri – não este sorriso de cor amarela e gosto desconfiado, o sorriso que não se importa com os dentes a mostra, que tudo reflete e contagia; o respirar pesado – antes nauseado, considerando todos os miasmas, repugnantes pedaços de ar – foi leve e jubiloso: aquele ar que me entrava as narinas e afogava-me o pulmão algum dia encontraria o teu peito, nadaria nas tuas veias, visitaria-te o corpo depois de me visitar.

a escrita (antes vazia, inclemente, espúria): airosa como teus olhos, esbelta como tua clavícula, jeitosa como tuas costelas, venusta como o teu colo, eufônica como a tua voz, revérbera como teu reflexo: incompleta como meu corpo cru, minha mão vazia, meus lábios solitários e esta poe…”

quanto se deve chorar para se esvair o oceano?

quanto mais devo lavar o tecido que me envolve o coração para que saiam estas manchas de vinho tinto?

quanto sangue devo mais verter pra que me suma a consciência, e numa branca mortalha seja envolvido?

das lembranças que não quero esquecer,

do calor, do amor, do toque dos lábios,

da antologia curta, do eclipse noturno,

quanto mais viverei para que meus dias de sina finalmente tenham fim?

o negrume envolve as manchas debaixo dos meu olhos,

minha sombra translúcida não quer aparecer.

àquele que ceifa estas correntes,

e dos grilhões da jaula oferece liberdade, digo:

venha

esqueceriam os olhos da cor do arrebol?

esqueceria a pele do quente e suave ardor solar?

quem seria louco de escolher o esquecimento?

e, evitando este olvidar, habito no vazio.

nesta terra o presente torna-se passado:

das memórias traço pequenas utopias.

das pequenas perceções antigas tomo inspiração e escrevo desvarios.

cada vez mais distante e reescrito:

o presente esquecido,

o futuro nunca tido,

o passado fictício.

a sombra que me tornei,

o passado confuso, abandonado.

nas nossas fotos:

teu rosto, sorriso, olhos belos.

minha figura apagada.

o passado devora-me e nada resta:

“quem sou?”

nos resquícios da minha antiga e morta felicidade:

os planos abandonados,

os dedos não mais entrelaçados.

nesta deprimida e desiludida experiência:

todas as pontes destruídas.

o terror e o anseio profundo de encontrar-te por acaso.

ver-te e ter-te ou nunca mais lembrar-te, querer-te.

nas mais que concretas possibilidades da tua felicidade longe:

viva.

nas ínfimas e improváveis conjecturas:

encontre-me.

não restam mapas, pontes, portas, nem janelas,

mas podes me encontrar.

e serei teu novamente.

trechos sujos de pensamentos perdidos:

“ela não quer apenas palavras. não. as palavras são bonitas? lógico que são! as vezes tem rima, as vezes não, as vezes a métrica domina, as vezes o poeta nega: objeção.
todas as palavras são escolhidas pelo poeta que as pesca no mar. ele tem rede, tem anzol, tem isca. tudo isso ele no papel rabisca, risca, risca. o mar, esse do qual falamos, é profundo? como oceano! os peixes convidam pra nadar e nadamos. mas. que adiantam as palavras? são tão bem articuladas no papel, presas, imóveis. a acepção nos diz que quando são lidas elas tomam vida, criam pernas, asas. voam! andam! nadam! mas, palavra qual já trouxe caricias, ja trouxe prazer? ja virou boca e beijou? ja tornou-se corpo e amou? não. as palavras são lindas, poderosas, místicas, magicas, divinas, etéreas, eternas. isso tudo? sim, são. mas nunca sentiram o gosto de um beijo, de um abraço, de carinhos. tentam mas não conseguem. viram moeda de troca talvez. não. não ouso tirar a divindade das palavras. mas elas nunca serão.
ela não quer apenas palavras. ela quer gestos, ela quer olhar, sorriso, mão, peito, beijo, suspiro. ela não quer só ouvir, ela quer falar, sussurrar, respirar, gritar, ensurdecer. ela não quer só olhar, ela quer tocar, sentir, fazer, torcer, apertar, arranhar. isso ela quer. o ‘eu te quero’, ‘eu te amo’ não se escreve apenas com palavras. se tece com o próprio corpo.”

sombras…

minha sombra me acompanha,
da rua, do corredor do predio,
até o quarto

aqui dentro é despercebida,
é penumbra
de tanta luz
espalhada

e quando apago,
no escuro,
ela se dissolve
no preto
mais que preto
do piso

é engraçado,
no escuro finito-infinito
do quarto
minha sombra é a mesma
da luminaria,
que faz luz

mas a tua sombra
quando veio no quarto
parecia mais exposta,
meu olho contemplava
o teu rosto-luz,
o teu rosto-sombra

e na parede fosca
as sombras se tocavam,
se beijavam

e no escuro
a minha sombra, escura,
diluida com a sombra
do abajur,
diluida
com a sombra da tua luz
eram uma só

e sabe-se lá
no viscoso preto
soturno
o que longe da luz
as sombras atadas
fizeram

mas,
desfeitas
longe da luz,
no Sol se refizeram
em
direções
opostas.

e se for pra morrer?

que morra afogado
nos teus
cabelos,
sentindo o teu
aroma de flor
enchendo
meus pulmões
sem vida

que morra
hipnotizado
por teus olhos,
que cabem céu
e mar,
castanhas
e caramelos.

que morra
compressado nos
teus braços,
com teu abraço:
nossas peles
tocando-se

como uma só
que eu morra
devorado nos
teus beijos,
nas tuas mordidas,
com a morada
do céu
na tua boca

se for pra morrer
que eu morra
de
amor